Mulheres empreendedoras ou empreendedoras mulheres?

Por Flavia Bendelá *

Essa semana, quando se encerra o que se convencionou chamar o Mês da Mulher, na tentativa de se dar amplitude a data comemorativa de 8 de março, fariam aniversário duas grandes mulheres que, apesar de não se conhecerem, deixaram junto aos seus, um legado grandioso: o seu exemplo de vida.

Para elas, que tinham na humildade e na dedicação ao próximo a marca de seus serviços como grandes guerreiras da nossa sociedade, dedico este texto e reflexão. Às duas anônimas que fizeram toda a diferença!

A luta histórica por direitos e igualdade tem sua legitimidade compartilhada por todas nós, mulheres, todos os dias de nossas vidas. Contudo, é brindada por toda a sociedade no seu Dia Internacional, quando se resgata o olhar atento para as conquistas merecidas, mas, infelizmente, também para o tanto que se tem de avançar.

É inegável que as mulheres já estão ativas, como protagonistas, em todos os meandros sociais, políticos, científicos, de negócios e empreendedorismo. Uma rápida pesquisa online pode mostrar números de como estamos caminhando, ainda que lentamente, no radar da igualdade de forças nas organizações. A McKinsey, em recente estudo na América Latina, revelou que empresas com mulheres em cargos executivos têm 50% mais chances de aumentar a rentabilidade e 22% de melhorar a média do indicador Ebitda.

No Brasil, especificamente, segundo o IBGE 37,4% dos cargos gerenciais, em 2019, já eram ocupados por mulheres. Porém, ainda no terceiro trimestre de 2020, por conta da pandemia, a participação desta força de trabalho caiu 14% em relação a 2019. Ou seja, a mulher é a primeira a perder o emprego, segundo o IBGE, ainda que recebendo em média 77,7% do total de rendimentos dos homens.

É nesse ponto que quero focar. Apesar dos volumes crescentes e das estatísticas modestas, existe uma pauta que nem sempre vem à tona: a mulher ser humano. Isto porque apesar de sermos indivíduos, como todos os seres humanos que habitam este planeta, somos identificadas com rótulos que minimizam ainda a nossa voz e mostram que, se estamos até hoje buscando respeito e representatividade, é porque não somos vistas pelo valor de nossas diversas personalidades individuais.

Para entender melhor o tema, proponho uma reflexão, fazendo um recorte no cenário do empreendedorismo no Brasil. De acordo com as últimas publicações do GEM (Global Entrepreneurship Monitor) vemos que a quantidade de mulheres empreendedoras no país é equivalente a dos homens, chegando a 50% em negócios iniciante, porém apresentando queda de 4% quando se tratam das empresas estabelecidas. Esse dado leva a observação de que homens tem mais facilidade de manterem o negócio. Por quê?

Esses números espelham a responsabilidade da mulher como chefe de família, apesar do maior nível de escolaridade, há pressão pelo ganha pão e necessidade de cuidar de todos, além da dificuldade de recolocação com salário compatível. Este cenário corrobora para que o empreendedorismo feminino no Brasil seja mais motivado pela necessidade e não por uma visão de oportunidade.

Por isso, quando restringimos o olhar ao mercado de inovação, apenas 4,7% das startups brasileiras foram fundadas exclusivamente por mulheres e outras 5,1% têm empreendedoras entre seus fundadores, conforme dados da Female Founders Report. Além disso, a visão da empreendedora como agente transformador parece não receber o mesmo eco de quando tratamos dos empreendedores. Prova disso é que, em 2020, startups lideradas apenas por mulheres receberam apenas 0,04% dos mais de US$ 3,5 bilhões investidos no mercado segundo uma pesquisa conjunta de Distrito, Endeavor e B2Mamy.

E é aí que a empreendedora enfrenta mais obstáculos… Seus atributos de personalidade, sua coragem, sua visão de negócios, sua liderança etc, são reduzidas ao rótulo mulher empreendedora, cercado por um olhar preconceituoso e velado de investidores, em sua maioria absoluta homens, que não tem tanta empatia por Elas quanto pelos seus pares de gênero.

Isso não é tão simplista como pode parecer! Para aqueles que já rejeitaram a ideia ao ler isso, convido a continuar o texto e quiçá futuro aprofundamento no tema. Há aí um processo humano, que se dá naturalmente, via subconsciente e que é explicado pela psicanálise e demais estudos da mente humana. O ser humano cria identificação com aquele que lhe parece semelhante.

Ignorar esse fato, não leva a correção do problema… cria guetos. Faz-se importante hoje fundos voltados ao empreendedorismo feminino, mas isso não deveria ser necessário se houvesse clara valorização das características femininas de liderança e dos benefícios que podem gerar. Mais uma vez, recorro a números levantados por pesquisas para mostrar essa miopia do mercado. O famoso Boston Consulting Group revelou que startups fundadas por mulheres geram o dobro de receita a cada dólar recebido em investimento, em comparação com as fundadas por homens.

Além disso, geram uma receita acumulada 10% maior em um período de cinco anos. Outro estudo realizado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra que a cada quatro empresas que promovem diversidade de gênero em cargos de direção, cerca de três têm um aumento no lucro. Outro aspecto importante é que, startups com fundadoras têm 2,5 vezes mais mulheres em seus times, segundo análise da Kauffman Fellows, gerando uma diversidade extremamente salutar para o sucesso das empresas.

Portanto, não cabe mais questionar a importância e os benefícios da representatividade da mulher na economia. É fato! Na verdade, gostaria de não sentir vontade de ter escrito este texto, porém não podemos fechar os olhos para um problema que ainda se apresenta refletido na 4ª Revolução Industrial. A questão não se trata da simples igualdade de comportamentos, mas da consciência que todos devemos ter: nos respeitar e olhar como indivíduos da mesma espécie e saber apreciar e valorizar a diversidade da persona humana.

* Flavia Bendelá

Founder e Chairwoman do DIS – Distrito de Inovação e Sustentabilidade

Empreendedora, Palestrante TEDX, Conselheira de Empresas e Membro do Núcleo de Inovação do Ibmec. Doutoranda em Business pela Rennes School of Business (Fr), com projeto de tese sobre Innovation: Venture Investiment Sustainability (ainda a defender).

Executiva com mais de 20 anos de carreira e liderança no mercado financeiro em empresas nacionais e multinacionais. Coordenadora de cursos executivos e docente em Estratégia de Negócios, Inovação, Sustentabilidade e Empreendedorismo.

Empreendedoras Mulheres?

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